Como Um Livro Nos Muda A Vida (Confissões De Agostinho)

Recentemente tive o privilégio de concluir, junto a dois amigos, a leitura das Confissões de Agostinho. Mais do que uma encantadora experiência literária, esta caminhada com o Bispo de Hipona foi transformadora. Foi unânime o sentimento de tristeza diante da ideia de devolver o livro às prateleiras. Como se realmente o tivéssemos conhecido, despedimo-nos dele com imediata nostalgia, principalmente por saber que já não éramos os mesmos. Compartilho aqui, dentro do que é possível neste espaço, as características que mais me cativaram na obra.

A sinceridade

Como é virtuosa sua ação que dá nome ao livro. Suas confissões nos fazem desejar também confessar-nos. Sem economizar detalhes, mas deixando-nos profundamente conscientes de quem ele foi, com honrosa transparência o autor se expõe. Desde o relato sincero das devassidões de sua juventude, da narração da perversão de seu coração diante de um “simples” roubo de peras, dos seus constantes questionamentos,  das orações de sua mãe piedosa, até os pormenores comoventes de sua conversão. Tão íntimos que são, como disse Jonas Madureira, quase nos despertam o sentimento de estarmos invadindo sua privacidade. Entretanto, mais do que uma necessidade terapêutica de expor seus feitos, nosso nobre filósofo se esforçou em nos deixar cientes de sua jornada para que vejamos o milagre de um homem transformado. É como se quisesse nos mostrar que, apesar da impressão de impossibilidade de salvação  para tão grande pecador que estamos conhecendo em suas páginas, a graça de Deus o encontrou e salvou.

A sensibilidade

Suas palavras, contudo, por vezes parecem minuciosamente escolhidas como num louvor à beleza. O bispo frequentemente se afigura em poeta. Quando diz: “A beleza que, através da alma do artista, é transmitida às suas mãos, procede  daquela beleza que está acima de nossas almas, e pela qual minha alma suspira noite e dia”, é do próprio encantamento por sua escrita que me lembro. É sua combinação de sabedoria, profundidade, inteligência e sensibilidade que costuradas por palavras tão bem proporcionadas, que demonstra tal arte de plenitude. Quantos não conhecem o famoso trecho “tarde te amei” que inspira músicas, poemas e tantos outros textos? Quantos não citam seus trechos como “fizeste-nos para ti e nossos corações ficam desassossegados enquanto não descansam em ti” sabendo que nessas breves citações se resumem tão grandes mensagens que nos tocam o coração? A ele foi dado o dom de não apenas dizer, ensinar, relatar, mas também de enternecer os corações com suas palavras.

Seu tom professoral

Entretanto, não lhe bastou encantar-nos com seus escritos na medida em que compartilhava sua mensagem. Como professor que era, o autor não se preocupou apenas em apresentar os fatos, mas que nós os aprendêssemos. Em meios às páginas de simples e agradável leitura, Agostinho tratou de assuntos que tomamos por evidentes com uma quase visceralidade, de sorte que inesperadamente a leitura se torna densa e desafiadora. Prodigioso, ao mestre não era suficiente que seus leitores tomassem conhecimento de algumas verdades, mas que, passando pelos caminhos de sua mente, realmente viessem a retê-las para a vida. Sua leitura vez ou outra pode se tornar laboriosa, porém nunca fatigante, pois, destacando a importância do que é dito com admirável talento, o autor é capaz de nos cativar mesmo que em suas partes mais complexas.

O seu relacionamento com Deus

Todavia, o que mais me impressionou no livro foi que, embora Agostinho tenha se esforçado em detalhar-nos as reflexões de todo o processo que o levou à fé, fica evidente que sua relação com Deus não se deu meramente no âmbito dos pensamentos. É perceptível em suas entrelinhas a integralidade de seu amor por Cristo que toma suas emoções, intelecto e espírito, bem como sua crescente intimidade e temor ao seu Criador. Revelam-se ao longo de suas páginas que tais confissões eram fruto de devoção amorosa ao Pai para que também nós, os leitores, O encontrássemos. Inspirador, o autor nos leva a perceber, pela realidade de tudo o que confessou e relatou, a verdade do Deus que conheceu. Ao ler a sua história, é possível que até ao mais cético perceber quão surpreendente sabedoria ele possui e quão inexplicáveis são as mudanças que ele viveu. Aos cristãos, entretanto, sua escrita pode despertar maior desejo por tal sensibilidade, intimidade e amor a Deus. Afinal, mais do que uma parte de sua obra, foi sua relação com Deus aquilo permeou, desenvolveu e entreteceu todas as virtudes que percebemos nela.

As confissões de Agostinho é um livro atemporal. Me pergunto se algum dia passou pela mente de seu autor que mais de um milênio depois ele estaria influenciando a humanidade com seus escritos. Católicos, Protestantes, ateus, filósofos, leitores curiosos, todos têm algo a aprender com esse homem. É um livro que, ao concluir a última página, dificilmente o leitor será o mesmo que o começou. Foi com gratidão a Deus e a esse homem, o qual a despeito de sua humanidade e pecaminosidade, submeteu-se ao altíssimo para manifestar sua glória criando essa obra, que amorosamente compartilhei aqui um pouco do que nela pude ver. Assim, concluo a desafiadora missão de descrevê-la citando o versículo bíblico que lhe dá início: “Grande és tu, Senhor, e sumamente louvável: grande a tua força, e a tua sabedoria não tem limite”.

Mayara Lima

29, Paranaense, Cristã, Professora de inglês, estudante de Arquitetura e Urbanismo, fã de literatura, poesia, artes e teologia. "Tu nos fizeste para ti mesmo, e nossos corações ficam desassossegados enquanto não descansam em ti”. - Agostinho

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