Estréia, câmeras fotográficas e vida ordinária

Eu sou a Lívia e esse é meu primeiro texto para o blog Abra a Porta, que honra! Depois de muita reflexão resolvi postar um texto de alguns meses atrás que eu não compartilhei por ser quase auto-biográfico. Acho que o momento oportuno é esse, uma vez que quem lê pode saber um pouco mais de mim e de como faço para viver em meio a realidade tantas vezes cruel da vida. Eu me deixo ser nova por Deus. Com vocês, senhoras e senhores, “eu tô de mudança”.

“Você superará isso. Não será indolor. Não será rápido. Mas Deus usará essa desordem toda para o bem. Não seja tolo nem ingênuo. Mas também não se desespere. Com a ajuda de Deus, você vencerá. ” Max Lucado

Esse texto não vai mudar a sua vida, nem seu dia. Não é o texto mais bem escrito que você lerá, nem demonstra nenhuma genialidade. Quem escreve, escreve porque sim. Eu sou assim. De qualquer forma, não repara a bagunça – nas ideias -, eu tô de mudança.

Estou de casa nova há exato um mês. Meus pais mudaram e eu fui junto. Vivi sempre na mesma casa, “aquele era o meu lar”, eu pensava. A realidade, no entanto, tem sido muito boa. Eu gostei de mudar, de estar perto de outros locais e amigos que eu já amava tanto! Nesse processo, mudei também de Igreja, saí do trabalho e me preparo para um intercâmbio. Comecei o ano me comprometendo a ter vida diária com Jesus, a entregar a ele a vida diária e ele mais do que nunca me abraçou. Como resultado da limpeza de Jesus eu fui ficando triste. Essa tristeza momentânea que destrona alguns plebeus metidos a rei no meu coração.

Eu estou fazendo terapia há 6 semanas após uma crise de ansiedade bem forte numa madrugada. Meu coração doía muito e eu estou nesse momento de acompanhamento e cura. Ao mesmo tempo, deixei meu trabalho, bens – planejei deixar a família para o intercâmbio – e as portas estão fechadas. Corri atrás de outras, que também foram fechadas. Como entender esse período? Há recurso, tempo, vontade, planejamento, mas as portas se fecham, uma após a outra. Eu não entendo.

Não tem muito o que entender. Estou correndo atrás das minhas vontades, planos, sonhos, desejos… Apego-me tanto a essas vontades que me vi egoísta e paralisada diante da incerteza, do descontrole, da frustração. O que é a vida se não a sucessão de eventos totalmente diferentes das expectativas e sonhos projetados nas nossas cabeças? Ela não é nada além disso, justamente porque é o que a pergunta descreve: frustração, descontrole e incerteza.

Na definição usei palavras que carregam um significado negativo. Tudo o que a gente não quer é ser frustrado, não ter controle e sentir incerteza diante da vida. Isso acontece se tomo como princípio fundamental que a minha vontade é a melhor, que as minhas expectativas são reais, que o sonho vai acontecer da maneira como eu imaginei que aconteceria.

Se quero ver a vida com outros olhos preciso trocar as lentes com as quais a enxergo. Quando penso nisso, lembro da minha câmera fotográfica e das lentes que tenho, cada uma com um propósito. Se quero fazer retratos e focar nos rostos maravilhosos de tanta gente por aí, uso a 50 mm e fico pertinho de quem fotografo, desfocando qualquer detalhe ao redor. Se quero a amplidão de uma sala e ver de perto quem está ali, posso usar a 18 – 55 mm, que me abre os “olhos” para enxergar além do que a 50 mm me possibilita. As minhas lentes me lembram que a MINHA visão também pode ser limitada, irreal ou perfeccionista; tudo menos real.

Sempre que eu olhar a vida partindo da ideia de que o que quero, espero e sonho é o melhor, correrei o risco de ser frustrada em todos os quesitos. A realidade da vida é a incerteza, ou a certeza do movimento. A gente faz as pazes com ela quando abraça o movimento. Mais do que isso, a gente abraça a vida quando ouve as palavras de Jesus sobre a incerteza, o medo e a frustração.

Passeando pelo Instagram eu encontrei um trechinho do depoimento de Malcolm Muggeridge (1903-1990) que, sobre o sofrimento, afirmou:

“Posso afirmar com total sinceridade que tudo o que aprendi em meus 75 anos de permanência nesse mundo, tudo o que verdadeiramente fortaleceu e iluminou minha existência, veio por intermédio da aflição e não da alegria perseguida ou alcançada. Em outras palavras: se fosse possível eliminar a aflição de nossa vida terrena, seja por meio de alguma droga, seja pela medicina alternativa, o resultado não seria uma vida melhor, mas sim, uma vida insuportavelmente banal e vulgar. Este, é claro, é o significado da Cruz. E foi a cruz, mais do que qualquer outra coisa, que me levou de forma inexorável a Jesus Cristo. ” Malcom Muggeridge – jornalista e escritor cristão-católico Britânico. 

Gravei essas palavras num mural singelo que tenho no meu quarto. O fundamento que leva o meu coração à confiança e beira à exultação vem das palavras do próprio Jesus, no conhecidíssimo Sermão da Montanha, que diz:

“Quero convencê-los a relaxar, a não se preocuparem tanto em adquirir. Em vez disso, prefiram dar, correspondendo, assim, ao cuidado de Deus. Quem não conhece Deus e não sabe como ele trabalha é que se prende a essas coisas, mas vocês conhecem a Deus e sabem como ele trabalha. ORIENTEM SUA VIDA DE ACORDO COM A REALIDADE, A INICIATIVA E A PROVISÃO DE DEUS. Não se preocupem com as perdas, e descobrirão que todas as suas necessidades serão satisfeitas. Prestem atenção apenas no que Deus está fazendo agora e não se preocupem quanto ao que pode acontecer amanhã. Quando depararem com uma situação difícil, Deus estará lá para ajudá-los. ” 

Na minha bíblia a página está quase que toda grifada. Sinto os dias dessa forma. Sendo completamente direcionada a contemplar a vida com os olhos de Jesus, a andar na rua com os olhos de Jesus, comer com os olhos de Jesus, me relacionar com meus alunos com os olhos de Jesus, tratar a quem me serve com os olhos de Jesus, servir a quem eu devo com os olhos de Jesus, viver na minha casa com os olhos de Jesus, ver a vida real e tantas vezes cruel com os olhos de Jesus.

Escrevi todos esses “com os olhos de Jesus” como recurso de escrita, de quem quer deixar bem enfático o que diz. Entrego a vida diária a Ele, recebo dele o pão, entrego cada situação, pessoa, evento, passo, pensamento, caminho, sorriso, motivação e refeição a Ele. Recebo a direção, novos sonhos, vislumbro outras portas, outras possibilidades e, assim, aos poucos a dor vai indo embora. Deixo de pensar tanto em mim e contemplo meus olhos nos outros e no serviço. Jesus paga o “prejuízo” das minhas vontades não realizadas quando me apresenta às dele.

Ainda não tenho todas as respostas. Às vezes só sinto, deixo a tristeza ser sentida, depois sacudo a poeira dos pés (e limpo as lágrimas dos olhos) e continuo. A vida é assim.

Esse texto não vai mudar a sua vida, tomara que tenha mudado um pouco seu dia. Não é o texto mais bem escrito que você lerá, nem demonstra nenhuma genialidade. Quem escreve, escreve porque sim. Eu sou assim. De qualquer forma, não repara a bagunça – nas ideias -, eu tô de mudança.

Lívia Castro de Almeida

Caminho há 26 anos descobrindo sutilmente a grandeza e sutileza de Deus no ordinário. Eternamente apaixonada por literatura e poesia vou andando pela vida vendo tudo por essas lentes. Se me utilizasse dos rótulos diria que sou Au Pair em Chesapeake, Professora de inglês, Revisora de textos, Cristã e Cantora; como não quero usá-los, não direi rs Do meu querido C. S. Lewis deixo minha frase favorita: "Quando me tornei homem deixei para trás as coisas de menino; inclusive o medo de parecer infantil"

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