O movimento Divino

Para a compreensão de divindade da filosofia grega antiga um dos atributos divinos é justamente a imobilidade. Aquele ser que é eterno e do qual tudo depende não pode mover-se, mas é, causa de todo movimento. O mover, para a compreensão grega geraria um devir, uma necessidade naquele ser que é eterno. No entanto, esta antiga compreensão não pode aliar-se ao modo como o cristianismo estabelece sua relação com Deus.

Para nós, cristãos, o Deus que se manifesta tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento é causa de todas as coisas, Criador e Salvador, e por isso mesmo se move, o amor com que cria e pelo qual salva o coloca em movimento, sempre em direção à obra de suas mãos. Perceber esse movimento divino é cada vez mais necessário em um mundo que tende aos extremos do ateísmo ou do fundamentalismo religioso. Compreender o movimento de Deus em relação à humanidade é fundamental para que possamos estabelecer um diálogo, promover um movimento resposta em direção a Deus e assim possibilitar o que existe de mais radical no cristianismo, o encontro com Deus.

Os textos sagrados mostram desde a Criação esta dinamicidade existente em Deus, a própria criação pressupõe um movimento, o falar de Deus tem um caráter performativo, isto é, realiza-se à medida em que a Palavra é pronunciada. Além do movimento criativo há aquele que se manifesta de forma ainda mais intensa e estabelece a relação fundante entre o Antigo e o Novo Testamento, o movimento que Deus faz em direção à humanidade para salvar: “Iahweh disse: ‘Eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu grito por causa dos seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios […]” (Êx 3,7-8a). É interessante e importante pensar neste movimento divino como um desejo amoroso de encontro, o Deus que cria e liberta seu povo faz um movimento para encontrar-se com seu povo e caminhar ao lado dele. Quando hoje facilmente questionamos a presença ou ausência de Deus em nossa vida, especialmente nos momentos de dificuldade, é preciso fazer memória deste movimento divino, lembrar que Ele já caminhou em nossa direção, cabe a nós reconhecer sua presença, permitir que Ele caminhe ao nosso lado, nos conduza segundo a Sua vontade.

A plenitude do movimento divino é explicitada no prólogo poético do quarto evangelho. Retomando o momento da criação, o evangelista insere o Verbo no movimento eterno de Deus: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio ele estava com Deus. Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito.” (Jo 1, 1-3). O movimento que Deus realiza em si eternamente é trazido para a realidade humana com um objetivo muito claro: a salvação. O prólogo se desenvolve como um movimento pendular, trata-se de um verdadeiro mergulho de Deus em direção à humanidade, saindo da total transcendência e retornando a ela apenas após o cumprimento de sua missão. O ponto extremo do movimento divino se encontra exatamente na encarnação: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e nós vimos a sua glória, glória que ele tem junto ao Pai como Filho único, cheio de graça e verdade” (Jo 1,14). Se parássemos para pensar na radicalidade desta ação de Deus, se nos detivéssemos nesta prova de amor que recebemos da parte dEle, talvez não corrêssemos procurando o sentido da vida em tantos outros lugares que não diante dEle.

Diante do nosso sofrimento, da nossa angústia e incompletude, Deus não fica alheio a nós, e enquanto caminhávamos perdidos, incapazes de compreender os planos de Deus para nós, Ele mesmo veio ao nosso encontro, assumiu a nossa limitação, nossa finitude, nossa carne, nossa dor e até a nossa morte para que assim pudéssemos aprender o caminho de volta para casa.

O movimento desenvolvido no prólogo de João termina com o retorno do Verbo ao seio de Deus, no entanto, Ele não retorna sozinho, tudo aquilo que Ele assumiu na encarnação é elevado junto com Ele, isto é, aqueles que pela fé acreditaram no Filho de Deus participam da sua filiação, são adotados por Deus, e voltam com o Verbo para junto de Deus.

Talvez hoje o mundo esteja tentando nos roubar nossa maior herança de filhos adotivos: a eternidade. Cada vez mais o modo de viver neste mundo tenta apagar de nossa mente e de nosso coração a história de amor de Deus em relação a nós; o mundo e o modo de viver nele valoriza apenas o momento, o passageiro, aquilo que nos realiza momentaneamente, e aos poucos vai apagando em nós o desejo pelo eterno. Precisamos reconhecer que esta nossa vida neste mundo é parte de um movimento, mas não é seu eixo, não é o seu princípio e muito menos o seu fim. Façamos da nossa vida aqui uma parte do movimento divino, não nos esqueçamos o que Ele fez por nós, como Ele mergulhou em nossa humanidade, tenhamos coragem de, mesmo nadando contra a corrente, mergulhar em sua eternidade.

 

Hiago Fonte Boa

Hiago Fonte Boa, 24, mineiro, cristão católico, seminarista, formado em Filosofia, estudante de Teologia, ancorado na esperança e na experiência do amor de Deus. Cinema, música, teatro, pizza... tô dentro!

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