O significado do Céu na vida de um cristão

“No céu é sempre domingo. E a gente não tem outra coisa a fazer senão ouvir os chatos. E lá é ainda pior que aqui, pois se trata dos chatos de todas as épocas do mundo”. Assim pensou Mário Quintana. Assim pensaram todos os outros que, se não zombaram da ideia do Céu, desprezaram-na como se se tratasse de um mosquito em cima de um bolo. Mark Twain também foi um deles: “As pessoas que me dizem que eu vou para o inferno e elas vão para o céu, de certa forma deixam-me feliz de não estarmos indo para o mesmo lugar”.

Mesmo que estas ideias venham de dois grandes escritores e embora concordem com isto alguns dos meus mais inteligentes professores de Literatura, eu só posso pensar que, ao cogitar o Céu como a casa dos chatos e do tédio infinito, estes indivíduos tiveram uma paupérrima imaginação e uma fraquíssima memória! Uma imaginação pobre por reduzirem a maior aspiração do ser humano (a felicidade eterna) a algo tão mesquinho e uma memória curta por esquecerem-se das próprias mães e das próprias avós. Obviamente, todos queremos que nossas mães e avós possam ir para o Céu e até inventaríamos um para elas, caso ele não existisse.

É bem difícil imaginar o Céu, pois a felicidade completa e eterna (ou seja, a felicidade perfeita) não é um artigo que esteja à nossa disposição neste mundo. Mas precisamos, ao menos, tentar formar uma ideia sobre ele. Pois é a ideia do Céu que dirigirá a nossa caminhada cristã e pensar que ele seja um lugar sem graça e tedioso não será para nós uma atitude espiritualmente saudável. Muito pelo contrário! Precisamos, ao menos, ter a certeza de que o Céu é bom. Aliás, maravilhoso! Esplêndido! Magnífico!

Jesus não disse muito sobre como o Céu é, Ele apenas disse que iria preparar um lugar para nós (Jo 14,2). Estas suas palavras foram suficientes para que muitas pessoas aceitassem de bom grado a tortura, a dor, a perseguição, a fome, a sede, o frio e tantos outros tipos de sofrimento para não perder a própria salvação e bastaram para que muitas entregassem suas próprias vidas nas mãos dos carrascos, na esperança de chegarem à Jerusalém Celeste.

E por que razão?

Porque as Palavras de Cristo são dignas de todo o nosso crédito. São fonte de vida interior. Palavras divinas que ressoam dentro do coração dos homens pela ação do Espírito Santo. Saber que existe algo, mesmo que não saibamos como seja este algo — “É como está escrito: Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam.”(1 Cor 2,9) — , é suficiente para nos dar esperança, já que o Criador colocou em nossas almas o anseio pela eternidade (Ecl 3,11).

C.S. Lewis refletiu: “se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para um outro mundo… Se nenhum dos meus prazeres terrenos é capaz de satisfazê-lo, isso não prova que o universo é uma fraude. Provavelmente os prazeres terrenos não têm o propósito de satisfazê-lo, mas somente de despertá-lo, de sugerir a coisa real. Se for assim, tenho de tomar cuidado para, por um lado, jamais desprezar ou ser ingrato em relação a essas bênçãos terrenas, e, por outro jamais confundi-lo com outra coisa, da qual elas não passam de um tipo de cópia, ou eco, ou miragem.” Neste excerto, ele aponta o caminho das pedras da vida do cristão: cada alegria desta terra deve apontar para o Céu, e, portanto, não devemos nos agarrar a elas como se fossem tudo o que temos. A ideia é um tanto platônica, porém a Verdade está em toda a parte e muitos puderam percebê-la de algum modo, até mesmo o filósofo grego que viveu antes de Cristo.

A certeza de que o Céu existe e de que o Céu preencherá o vazio do nosso coração deve fazer com que desprezemos as realidades que nos afastarão dele e abracemos as realidades que nos levarão a ele, mesmo que sejam dolorosas. Deste modo, a certeza do Céu deve criar em nossa alma uma profunda convicção de que é melhor morrer do que pecar, como dizia o jovem São Domingos Sávio. A certeza do Céu deve nos impulsionar a proferir como São Felipe Néri: “eu prefiro o Paraíso”, a cada vez que as tentações da carne, do demônio e do mundo vierem seduzir nossos pobres corações.

Lembrar que estamos de passagem nesta vida e que, a cada dia, se aproxima de nós a eternidade, deve produzir em nós profunda paz e alegria. Se isso não acontecer é porque ainda não estamos trilhando o caminho que sabemos que devemos trilhar ou significa que não cremos de verdade que há um lugar reservado para nós no Céu.

Infelizmente, muitos cristãos ainda não têm fé na existência do Céu e outros tantos de nós não creem que lá seja um lugar tão legal assim que compense todas as renúncias que têm de fazer para alcançá-lo. Outros ainda não acreditam que o bom Deus os queira levar para lá. Assim, correm o risco de viver, na prática, como se fossem pagãos. Este é um grande perigo, pois coloca em risco a salvação de suas almas.

Portanto, urge refletir: nós realmente cremos na existência do Céu? Se sim, cremos que nele há tudo de mais perfeito, bonito, alegre, pacífico e bondoso que existe? Cremos que, ao atingirmos a visão beatífica de Deus seremos plenamente felizes, ou achamos que contemplar a Deus não será algo satisfatório para nós? Se realmente cremos no Céu e sabemos, ao contrário dos céticos, que lá não é o lugar do tédio e dos chatos, por que não fazemos de tudo para conquistá-lo?

Após estas reflexões, peçamos a Deus a graça de crer sinceramente na existência do Céu e a graça de chegarmos a ele, juntamente com todas as pessoas que amamos e até com as que nos perseguem, já que na glória de Deus, seremos todos transformados. (Sugestão de leitura: Colossenses 3, 1-11)

Além disso, lembremo-nos da bondade de Deus que faz com que o Céu comece aqui na terra, em nossos corações. O Céu é a presença de Deus. Isso é tudo. Não é como se estivéssemos tateando no escuro em busca de algo incerto. Quem renuncia tudo por amor a Cristo, já começa a viver o Céu aqui. Portanto, a imaginação do Céu, necessária no começo da caminhada cristã, passa a ser uma experiência real e concreta na vida de cada imitador de Jesus. Este é o testemunho dos santos. Eis o que vivenciou Santa Teresa dos Andes quando foi para o carmelo, abrindo mão de tudo por Nosso Senhor:

 “Não imagina a felicidade de que desfruto. Encontrei, por fim, o céu na terra. Se é verdade que me separei dos meus com o coração desfeito, hoje gozo de uma paz inalterável“. 

Escrevo este texto na esperança de que nos ajude a sonhar com o objetivo para o qual Deus pensou a nossa vida desde todo o sempre: o Céu!

Paz e bem!

 

 

Laura Cintra

Cristã Católica, 25 anos, mineira e estudante de Letras. “Um homem viveu, há séculos, no Oriente. E eu não posso olhar para uma ovelha, uma andorinha, um lírio, um campo de trigo, uma vinha, uma montanha, sem pensar nEle…” – G. K. Chesterton

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