Puritanismo ou Moralismo

A ênfase em uma vida santa sempre foi um dos focos do cristianismo, pois é impossível alguém se dizer verdadeiramente cristão sem que a sua vida prove isso, o apóstolo Tiago foi muito enfático sobre isso ao nos exortar que uma fé sem obras é morta[1]. Em toda a história da igreja houve homens e mulheres que nos servem de exemplo, pois suas vidas provam claramente que o novo nascimento gera novas criaturas e não um homem melhorado. Muitos deles eram chamados de Puritanos, esse termo foi criado de por volta de 1564, porém foi utilizado de maneira jocosa para definir a ênfase de alguns homens em viver uma vida verdadeiramente santa, muitos que os chamavam assim falavam isso porque viam esses homens como aqueles que queriam ser mais “puros” e ter uma igreja mais “pura”. Formando assim um falso estereótipo que imputava a esses homens um temperamento neurótico e taciturno e uma visão negativa quanto às alegrias e prazeres desta vida.

O historiador americano Edmund S. Morgan disse que “contrário à impressão popular, os puritanos não eram ascetas. Embora alertassem de forma contínua contra a vaidade das criaturas quando mal utilizadas pelo homem caído, eles nunca elogiaram cilícios e pães secos. Eles gostavam de boa comida, boa bebida e confortos domésticos; riam de mosquitos e consideravam uma provação genuína beber água quando a cerveja acabava”[2]. J. I. Packer diz que a qualidade que mais deveríamos copiar dos puritanos é a sua maturidade cristã, eles eram uma composição de sabedoria, boa vontade, maleabilidade e criatividade.

Atualmente temos visto que muitos cristãos têm se aproximado do puritanismo, vemos isso em muitos pregadores que falam enfaticamente sobre a ira de Deus mediante nossos pecados, seus sermões são sempre focados em nos exortar a uma vida santa e compromissada com Deus, pois assim como na Grã-Bretanha do século XVII, muitos cristãos hoje em dia acreditam que o fato de frequentarem igrejas já os tornam salvos.

Contudo, como naquela época, ainda hoje há um grande risco no excesso nesse tipo de sermão. Esse excesso se dá pelo fato de que, a preocupação no crescimento na santidade pessoal tem sobreposto o foco na justificação. Michael Reeves diz que o perigo em relação aos puritanos tanto daquela época quantos os de hoje, consiste na tentação de concentrar-se só no viver santo como resposta ao evangelho às custas da proclamação da livre graça salvadora de Deus[3]. Nesse ponto o equilibro proposto pelo apóstolo Tiago de fé e obras é quebrado, dando-se ênfase as obras em detrimento da fé, cria-se uma confiança em nosso estado espiritual e não na nossa fé em Cristo. Como aponta Thomas Goodwin, a preocupação com a própria condição espiritual revela a mente de muitos confinada de modo tão completo ao próprio coração que Cristo é raro em todos os seus pensamentos. A consequência disso tudo é que a vida santa que deveria ser o fruto de uma fé verdadeira, torna-se apenas um moralismo cristão zeloso que perde de vista a graça de Deus, semelhante aos dos fariseus da época de Jesus que achavam que suas práticas serviriam para lhes salvar.

O pregador puritano Richard Sibbes, a partir de uma profunda introspeção e autoconfiança moral, combateu esse excesso. Com uma série de sermões baseado em Mateus 12:20[4], Sibbes começou a expor Jesus em seu caráter cristocêntrico, com a intenção de retirar os olhos das pessoas de seus próprios corações e lhes dirigir ao Salvador, pois como ele mesmo afirmou “há alturas, profundidades e larguras de misericórdias nEle superiores a todas as profundidades dos nossos pecados e misérias”[5]. Sibbes percebeu que ao invés de lançar fardos morais pesadíssimos sobre cristão imaturos e em conflito, deveria lhes apresentar a beleza de Cristo para poderem amá-lo de coração. Ele acreditava que apenas alterar os comportamentos não afetava em nada o pecado do coração, era necessário que os cristãos aprendessem a amar verdadeiramente a Cristo, pois a solução para o pecado não está em tentar viver sem pecado, mas nas boas novas de salvação que é Cristo.

Concluo oferecendo dois conselhos, o primeiro é para aqueles cristãos que estão fracos, que sentem que não conseguem mais vencer seus pecados. OLHEM PARA CRISTO. Assim como Sibbes, C. S. Lewis também compreendeu que é só quando nos voltamos para Cristo que começamos a ser novas criaturas, pois se você buscar viver olhando para dentro de si, encontrará apenas ódio, solidão, desespero, fúria, ruína e a podridão, porém se buscar a Cristo, O encontrará, e junto com Ele o seu novo Eu, o seu Eu verdadeiro[6]. Procurem viver uma vida santa, mas mantenham o foco em Cristo, ele é a referência, é Ele que nos justifica.

O segundo conselho é para aqueles que descobriram a teologia puritana e ficaram fascinados com ela, NÃO ESMAGUEM A CANA QUEBRADA NEM APAGUEM O PAVIO QUE FUMEGA. A ênfase na vida santa tende a nos fazer “teólogos da queda”, pois nos preocupamos apenas em apontar o que é pecado, a falar sobre a ira de Deus, a chamar pecadores de raça de víboras, etc. Porém, Cristo é totalmente eclipsado em nossa teologia. Lembre-se da criação, dando a dignidade ao homem que lhe é devida, pois fomos feitos a imagem e semelhança de Deus, e mesmo com a queda ainda somos criaturas de Deus. E lembre-se também da redenção, pois foi por causa de Cristo, somente por causa de Cristo que somos redimidos, não existe vida santa e verdadeiramente regenerada se o foco não for Cristo. Os sermões de Richard Sibbes com base em sua exposição de Mateus 12:20 foram publicados como livro com o título O Caniço Ferido e o Pavio Que Fumega, nele encontramos um chamado para os cristãos serviram mais à semelhança de Cristo, não esmagando os fracos com fardos, mas soprando o oxigênio do evangelho no pavio latente de vidas cristãs faiscantes[7] [8].

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Referências:

[1] Tiago 2:26
[2] A Família Puritana: Religião e Relações Domésticas na Nova Inglaterra do século XVII – Edmund S. Morgan
[3] A Chama Inextinguível – Descobrindo o cerne da Reforma – Michael Reeves
[4] Não quebrará o caniço ferido, não apagará o pavio fumegante, até que leve à vitória a justiça. (KJV)
[5] O Caniço Ferido e o Pavio Que Fumega – Richard Sibbes
[6] Cristianismo Puro e Simples – C. S. Lewis
[7] A Chama Inextinguível – Descobrindo o cerne da Reforma – Michael Reeves
[8] Disponível gratuitamente em: http://monergismo.com/wp-content/uploads/canico-ferido_sibbes.pdf

 

Jefferson Oliveira

27, carioca, um cristão que trabalha com TI, amado por Deus e apaixonado por teologia, história, filosofia, física teórica, música e bacon. "A busca por excelência também é uma forma de glorificar a Deus" - Francis A. Schaeffer

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