Se perdoe, por favor!

É de conhecimento de qualquer cristão que Deus é cheio de bondade e misericórdia (Salmos 85, 5) e que “Ele nos arrancou do poder das trevas e nos introduziu no Reino de seu Filho muito amado, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados.” (Colossenses 1, 13-14).

Porém, o fato de sabermos sobre a misericórdia de Deus, não impede de nos autocondenar. Quantas vezes, depois de fazer algo errado, começamos a nos julgar e nos punir… “Eu não deveria ter feito isto! … Como eu pude agir assim?!… Eu sou a pior pessoa do mundo! … Entre tantas outras frases/pensamentos de autoflagelação.

Sobre a necessidade do autoperdão temos o exemplo de dois homens: Pedro e Judas.

Pedro era um homem de contrastes. Em Cesareia de Filipe, Jesus perguntou: “Mas vós, quem dizeis que eu sou?” Ele respondeu de imediato: “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo” (Mt 16.15-16). Alguns versículos adiante, lemos: “E Pedro chamando-o à parte, começou a reprová-lo…” Era característico de Pedro passar de um extremo ao outro. Ao tentar Jesus lavar-lhe os pés no cenáculo, o imoderado discípulo exclamou: “Nunca me lavarás os pés.” Jesus, porém, insistiu e Pedro disse: “Senhor, não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça” (Jo 13.8,9).

Pedro tinha um gênio forte, mas ele se deixou cativar por Jesus. Em João 21, temos a demonstração da fraqueza e fortaleza de Pedro. Narra as Escrituras que “tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes? Respondeu ele: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros” (João21, 15). E quando o Cristo pergunta-lhe pela terceira vez sobre esse amor, Pedro responde: “Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas.” (João 21; 17).

Nesta passagem vemos Jesus mostrando a Pedro que Ele sabe do seu amor, porque Jesus sabe de tudo, mas que naquele momento, Pedro precisava saber o quanto ele amava Jesus e o quanto Jesus acreditava nisso, porque antes, Pedro nega o Senhor (João 18, 25).

Eis o ponto crucial: Pedro se perdoa! Ele errou, ele negou o próprio Cristo, mas ele não parou no seu erro, ele se ergue e se tornou o grande líder da Igreja. Porque “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Romanos 5, 20)

Mas com outro discípulo, não houve autoperdão, ao contrário, houve uma dor imensa que o submergiu e não o deixou ser tocado pela misericórdia de Deus.

Todos os Evangelhos colocam Judas Iscariotes no fim da lista dos discípulos de Jesus. Sem dúvida alguma isso reflete a má fama de Judas como traidor de Jesus.

Os Evangelhos não nos dizem exatamente quando Jesus chamou Judas pra juntar-se ao grupo de seus seguidores. Talvez tenha sido nos primeiros dias, quando Jesus chamou tantos outros (Mt 4.18-22). Judas funcionava como tesoureiro dos discípulos, e pelo menos em uma ocasião ele manifestou uma atitude sovina para com o trabalho. Foi quando uma mulher por nome Maria derramou unguento precioso sobre os pés de Jesus. Judas reclamou: “Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários, e não se deu aos pobres?” (Jo 12.5). Enquanto os discípulos participavam de sua última refeição com Jesus, o Senhor revelou saber que estava prestes a ser traído e indicou Judas como o criminoso. Disse ele a Judas: “O que pretendes fazer, faze-o depressa” (Jo 13.27). Todavia, os demais discípulos não suspeitavam do que Judas estava prestes a fazer. Judas traiu o Senhor Jesus, influenciado ou inspirado pelo maligno (Lc 22.3; Jo 13.27). Tocado pelo remorso, Judas procurou devolver o dinheiro aos captores de Jesus e enforcou-se. (Mt 27.5)

É um mistério a escolha e confiança de Jesus por Judas. “Torna-se ainda mais denso o mistério acerca do seu destino eterno, sabendo que Judas “se arrependeu e restituiu as trinta moedas de prata aos sumos sacerdotes e aos idosos, dizendo: ‘Pequei, entregando sangue inocente’ (Mt 27, 3-4). Mesmo se em seguida ele se afastou para se ir enforcar (cf. Mt 27, 5), não compete a nós julgar o seu gesto, substituindo-nos a Deus infinitamente misericordioso e justo” Papa Emérito Bento XVI.

 “Pedro, depois da sua queda, arrependeu-se e encontrou perdão e graça. Também Judas se arrependeu, mas o seu arrependimento degenerou em desespero e assim tornou-se autodestruição. Para nós isto é um convite a ter sempre presente quanto diz São Bento no final do fundamental capítulo V da sua “Regra”: ‘Nunca desesperar da misericórdia divina’ “Papa Bento XVI

“Então, o que faremos, portanto, nós? Quem seguiremos, Judas ou Pedro? Pedro teve remorso pelo que ele tinha feito, mas também Judas teve remorso, tanto que gritou: “Eu traí sangue inocente!”, e devolveu as trinta moedas de prata. Onde está, então, a diferença? Em apenas uma coisa: Pedro teve confiança na misericórdia de Cristo, Judas não! O maior pecado de Judas não foi ter traído Jesus, mas ter duvidado da sua misericórdia” Pe. Raniero Cantalamessa

Não importa o que você tenha feito, não se torne escravo do seu pecado. O seu passado não é maior do que Aquele que te escolheu! Se perdoe, por favor!

Talvez esteja na hora de se reconciliar consigo mesmo, encarar a difícil constatação de que você também erra e, apesar de ser uma excelente pessoa em quase cem por cento do tempo, é alguém falível e está em construção.

Se você for católico, procure o sacramento da confissão, se for de outra denominação religiosa, procure seu líder ou alguém no qual você pode se abrir sem condenação ou julgamento, conte seu erro, humilhe-se e busque não errar mais. Mas se você cair de novo, Deus estará ao seu lado esperando que você permita que Ele limpe suas feridas e te faça descansar, porque Ele te ama!

Na realidade Deus “é maior que o nosso coração”, como diz São João (1 Jo 3, 20). Lembre-se:

  • Primeiro: Jesus respeita a nossa liberdade.
  • Segundo: Jesus espera a nossa disponibilidade para o arrependimento e para a conversão; é rico de misericórdia e de perdão.

Bento XVI nos recorda: “afinal, quando pensamos no papel negativo desempenhado por Judas devemos inseri-lo na condução superior dos acontecimentos por parte de Deus. A sua traição levou à morte de Jesus, o qual transformou este tremendo suplício em espaço de amor salvífico e em entrega de si ao Pai (cf. Gl 2, 20; Ef 5, 2.25)”.

Deus já te perdoou, mas cabe a você decidir se aceita ou não!

Conte com minhas orações! Você não está só nessa caminhada rumo ao Céu!

 

Referência:

Bíblia Católica Ave Maria

AUDIÊNCIA GERAL. Quarta-feira, 18 de Outubro de 2006. Judas Iscariotes e Matias. Papa Emérito Bento XVI http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2006/documents/hf_ben-xvi_aud_20061018.html.

Judas foi condenado por sua traição? Professor Felipe Aquino. Disponível em: http://cleofas.com.br/judas-foi-condenado-por-sua-traicao/.

Celebração da Paixão de 2014 presidida pelo Papa, Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap, pregador da Casa Pontifícia, reflete na traição de Judas. Disponível em: https://www.acidigital.com/noticias/integra-homilia-de-frei-raniero-cantalamessa-na-celebracao-da-paixao-do-senhor-no-vaticano-56731.

 

Rosana Santos

24 anos, cristã católica, advogada, mineira de coração, em busca de Cristo eternamente. "O amor supera a justiça. Justiça é dar ao outro o que é dele, Amor é dar ao outro o que é meu". Joseph Ratzinger

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