Um Novo Tipo de Vida

É muito comum entre as crianças o desejo imaginativo de que seus brinquedos ganhem vida. Vez ou outra minha sobrinha de três anos muda sua voz fazendo a fala de suas bonecas, isso quando ela não faz o diálogo de dois brinquedos entre si. C.S. Lewis, com toda a sua sensibilidade de autor de livros para crianças, expressou muito bem esse sentimento infantil em seu livro “Cristianismo Puro e Simples” no capítulo chamado “Os teimosos soldadinhos de chumbo”. Nele, o autor inglês nos leva a refletir sobre como seria se esses brinquedos ganhassem vida. Estimulando nossa já adulta imaginação com essa memória, de modo inesquecível  Lewis nos ajuda a compreender um novo sentido de vida. A Vida Cristã.

Sabemos que, por causa do pecado, conforme dizem as escrituras, sobreveio a morte sobre todos os homens. Assim, embora vivos na carne, estamos espiritualmente mortos, estáticos, como, de fato, os soldadinhos de chumbo. Lewis então sugeriu que imaginássemos a possibilidade desses soldadinhos de chumbo ganharem vida. Para isso, disse ele, é preciso que a vida de Cristo, que ele chama de “zoé”, seja em nós injetada. Somente a partir dela nós passamos a ganhar movimento, fôlego, e a verdadeira vida.

Muitos, contudo, associam essa vida cristã ao cumprimento de uma lista de regras. As famosas “listas de coisas que cristãos podem e não podem fazer”. Em seu livro “A verdadeira Espiritualidade”, Francis Schaeffer concentra-se em nos mostrar que a vida cristã é, por diversas vezes, apenas associada a essas ações externas. Entretanto, segundo ele, trata-se, na verdade, de algo muito diferente. De uma transformação de dentro para fora.

Dois exemplos de como essa transformação interior se dá estão nas palavras de Jesus Cristo. Quando interrogado sobre o perdão, Ele disse que não devemos perdoar alguém sete vezes, mas setenta vezes sete, isto é, o inimaginável. Também, quando lhe perguntaram sobre o adultério, Ele então declarou que “quem olhar para uma mulher com desejo impuro, já adulterou com ela”. Em ambos os casos, fica evidente a minimalidade dos atos, das ações externas que evitamos ou praticamos, em face à imensidão de nosso interior que ele quer atingir.

 

Sob essa ótica, este viver passa de difícil para quase assustador, pois, mais do que uma régua para nos medir como “mais” ou “menos” santos, a vida com Cristo trata de transformação completa no que somos, no que sentimos, no que pensamos e, enfim, no que fazemos. É algo no interior do homem, como nas palavras de Lewis:               

“A via cristã é diferente: é mais difícil e é mais fácil. Cristo diz: ‘Quero tudo o que é seu. Não quero uma parte do seu tempo, uma parte do seu dinheiro e uma par­te do seu trabalho: quero você. Não vim para atormen­tar o seu ser natural, vim para matá-lo. As meias-medidas não me bastam. Não quero cortar um ramo aqui e outro ali; quero abater a árvore inteira. Não quero ras­par, revestir ou obturar o dente; quero arrancá-lo. En­tregue-me todo o ser natural, não só os desejos que lhe parecem maus, mas também os que se afiguram inocen­tes – o aparato inteiro. Em lugar dele, dar-lhe-ei um ser novo. Na verdade, dar-lhe-ei a mim mesmo: o que é meu se tornará seu’.”

Com efeito, trata-se então de Cristo vivendo em nós, nessa nova vida. Vivificando nosso espírito, agindo e revestindo cada um de nossos atos de verdade e pureza.

Diante disso, compreendemos deste modo que somente ao encontrar nosso Senhor, passamos a viver a verdadeira vida. Assim, perante às dificuldades desta peregrinação e às lutas que todos os dias travamos contra o mal e contra os nossos pecados, é preciso que seja mantida a confiança de que a boa obra que se começou em nós, há de se completar.  Steven Lawson disse: “Se olho para mim, me deprimo. Quando olho para os outros me iludo. Quando olho para as circunstâncias me desencorajo. Mas quando olho para Cristo me completo”. Desta maneira, ligados a Ele, dia a dia sendo transformados por sua graça, sigamos, enfim, com essa segurança.  Cada vez menos feitos de chumbo. Cada vez mais vivos.

Mayara Lima

29, Paranaense, Cristã, Professora de inglês, estudante de Arquitetura e Urbanismo, fã de literatura, poesia, artes e teologia. "Tu nos fizeste para ti mesmo, e nossos corações ficam desassossegados enquanto não descansam em ti”. - Agostinho

Comentários no Facebook

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.