A Oração Escondida

É preciso confessar: não é fácil expor nossas fraquezas e vulnerabilidades para qualquer pessoa. Não é um tarefa agradável mostrar nudez das emoções mais sensíveis diante de alguém. Por vezes o que se faz é construir inconscientemente uma redoma que mantém distância razoável toda e qualquer ameaça ao conforto do nosso “eu forte”. Entretanto, qualquer relação que se quer verdadeira pode sempre ser profundamente prejudicada pela superficialidade daquele que não se mostra. E, se nas relações humanas isso é tão comum e prejudicial, na relação do homem com Deus é ainda muito mais.

São diversos os motivos que levam ao que eu chamaria de “meia oração”, ou seja, aquela que diz para Deus apenas aquilo que a razão compreendeu pelo conhecimento adquirido através da teologia e do ensino da igreja, mas que oculta o que se sente no íntimo. Os discursos triunfalistas não colaboram. A mentira, direta ou indireta, de que quem tem Deus está livre de dúvidas e problemas acaba por estimular os neófitos, e mesmo aqueles que conhecem Deus a mais tempo, a negar (ou silenciar) seus questionamentos e reflexões pessoais, suas tristezas, seus dilemas em busca da aparência de força e convicção. Assim, sutil e lentamente é possível se afastar de um relacionamento verdadeiro com Cristo.

Uma das confissões mais pungentes e sinceras que conheço está no livro “Anatomia de uma dor”, no qual o autor, C.S. Lewis, enlutado pela morte de sua esposa, abre o coração dizendo:

“Quando você está feliz, muito feliz, não faz nenhuma ideia de vir a necessitar dEle, tão feliz, que se vê tentado a sentir suas reivindicações como uma interrupção; se se lembrar e voltar a Ele com gratidão e louvor você será – ou assim parece – recebido de braços abertos. Mas, volte-se para Ele, quando estiver em grande necessidade, quando toda outra forma de amparo for inútil, e o que você encontrará? Uma porta fechada na sua cara, ao som do ferrolho sendo passado duas vezes do lado de dentro. Depois disso, silêncio. Bem que você poderia dar as costas e ir embora. Quanto mais espera, mais enfático o silêncio se torna. Não há luzes nas janelas…”

O quase escândalo que tal confissão pode causar talvez se dê pela raridade de tal sinceridade. Mesmo nas orações mais íntimas e silenciosas é sempre difícil confessar que, como Lewis sugere no mesmo livro, às vezes queremos mesmo é dizer: “Deus perdoe a Deus”. Porém, como está bem descrito no salmo 139, todas as nossas lamentações, a falta de fé, os pecados, as decepções e palavras malcriadas e ressentidas que escondemos até de nós mesmos, são por Deus profundamente conhecidas. Escondê-las não nos trará nem cura, nem consolo.

Diferentemente dos deuses das mitologias, cuja ira se dizia abrandar com elogios, ofertas e sacrifícios, o Deus vivo e poderoso, nas palavras de seu servo Davi (Sl 51), não se agrada com sacrifícios, mas com corações quebrantados e contritos. Quem já teve o coração verdadeiramente partido pelas circunstâncias da vida sabe que não dá para fingir ou segurar as lágrimas por muito tempo. Lembro-me de quando perdi uma tia, que era minha conselheira e amiga. Permaneci incólume enquanto consolávamos seu esposo e filhos. Foi só quando cheguei em casa, sozinha, que, tendo consciência que perdi alguém que amava, não pude conter a dor e as lágrimas. É nesse quebrantamento que, incontidos,  mostramos genuinamente o que sentimos. É essa sinceridade que o Senhor busca em nossa relação com Ele. É essa oração na qual conhecemos a nós mesmos que podemos ser transformados por Ele.

Desde Adão e Eva, por toda a bíblia vemos homens se escondendo de Deus. Em seu diálogo com a mulher samaritana (Jo 4), por exemplo, Jesus revelou o que ela escondia. Ela então pergunta sobre onde se deve adorar a Deus. Ele responde que não se trata de um lugar exterior, mas de adorá-lo em Espírito e em verdade. Pela sequência da interação, percebemos que ao invés de preocupar-se com os rituais e locais, era importante à mulher que ela revelasse a verdade diante de Cristo. Pois, aquele que é a verdade e conhece-nos intimamente é o único que pode nos perdoar e transformar. Davi, quando teve seu pecado revelado bem disse: “Sei que desejas a verdade no íntimo; e no coração me ensinas a sabedoria.”(Sl 51:6). Assim, por mais desagradável que pareça a verdade, confessar o que sentimos é o único modo de progredir. Se queremos ter uma relação verdadeira com um Deus verdadeiro a transparência é o passo primário. Sendo assim, oremos as verdades de nossos corações, confessemos as tristezas, as decepções, as desconfianças, a nossa falta de fé… E, em sinceridade, conheçamos mais a Ele e a nós mesmos.

Mayara Lima

29, Paranaense, Cristã, Professora de inglês, estudante de Arquitetura e Urbanismo, fã de literatura, poesia, artes e teologia. "Tu nos fizeste para ti mesmo, e nossos corações ficam desassossegados enquanto não descansam em ti”. - Agostinho

Um comentário em “A Oração Escondida

  1. Ótimo o texto. ” Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça”
    1 João 1:9

    O esvaziamento do nosso eu é necessário para preenchimento da nossa alma. Parabéns

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