Com os olhos fitos em Jesus

O olhar é um dos traços mais marcantes da personalidade humana. Pelo olhar o estado de ânimo se comunica, a alegria ou a tristeza transbordam, a determinação ou a frustração se manifestam. Hoje, porém, com um mundo tão rápido, apressado e cada vez mais insensível o olhar parece desvalorizado, ou usado apenas no campo do interesse, de modo superficial. Essa atitude superficial torna as relações vazias, e não nos permite experimentar a radicalidade da essência humana. O olhar quando expresso e lido em sua inteireza comunica mais do que a palavra, mais do que a entonação de voz, mais do que a própria intenção do locutor e do interlocutor. São Beda, o venerável, ao descrever a vocação de Mateus, o cobrador de impostos, narra que Jesus ‘olhou com misericórdia aquele que elegeu’. A força que existe no olhar de Jesus e encontra resposta no olhar de Mateus dá um rumo novo à sua vida, ele deixa tudo e vai atrás daquele olhar misericordioso que o chamou.

Muitas vezes, porém, mesmo conhecendo a força que o fato de olhar diretamente para Jesus pode exercer em nossa vida, não estamos preparados para tal experiência. O episódio em que os discípulos de Jesus estão em meio a uma tempestade no mar e o veem se aproximando, andando sobre as águas, é um exemplo claro de nossa inconstância. Mesmo tendo presenciado a multiplicação dos pães, olhando ao longe, não reconhecem Jesus e se desesperam.“Mas Jesus lhes disse logo: ‘Coragem, sou eu, não tenhais medo’. Pedro, interpelando-o disse: ‘Senhor, se és tu, manda que eu vá ao teu encontro sobre as águas’.  E Jesus respondeu: ‘Vem’.” (Mt 14, 27-29a). O desafio de Pedro nessa passagem do evangelho é uma experiência importante para a fé de todo cristão. Para caminhar sobre as águas Pedro precisa fixar seu olhar no seu objetivo, na sua meta, e mesmo com consciência de todo o perigo ao redor, o olhar fixo em Jesus é a garantia de que é possível passar pela adversidade. “Descendo do barco Pedro caminhou sobre as águas e foi ao encontro de Jesus. Mas, sentindo o vendo, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’” (Mt 14, 29b-30). Pedro, como muitos de nós faz uma experiência profunda do olhar de Jesus e é capaz de um feito miraculoso, não por seu mérito, mas por acolher a força que vem do olhar de Cristo. No entanto, também como muitos de nós, não tem constância, as adversidades gritam, balançam, atormentam, e o olhar se desvia do essencial. Quando os olhos de Pedro saem de Jesus é que ele afunda. “Jesus estendeu a mão prontamente e o segurou, repreendendo-o: ‘Homem fraco na fé, por que duvidaste?’” (Mt 14, 31). Diante do fracasso de Pedro, duas coisas são fundamentais: aprender que estar com os olhos fixos em Jesus não anula as dificuldades, mas é determinante para vencê-las; e mesmo que diante das dificuldades comecemos a afundar, Ele nos ergue e com a mesma misericórdia nos olha de novo. “Assim que subiram ao barco o vento amainou. Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: ‘Verdadeiramente tu és o Filho de Deus!’” (Mt 14, 32-33). Quando o olhar permanece em Jesus a tempestade é acalmada, o que não significa o fim das dificuldades, mas a presença de Jesus na barca é certeza de sentido, de rumo certo. E é dessa experiência, desse encontro íntimo com o olhar do Senhor que brota o testemunho, a profissão de fé, é nesse encontro que se revela a identidade de Jesus.

Hoje os cristãos se veem perdidos com tanta coisa para ‘ver’ no mundo, o olhar não se mantém, não se sustenta, não comunica. É preciso resgatar a força que existe no encontro com Cristo não apenas para vencer ou suportar as próprias tempestades, mas para chegar ao testemunho da fé e ser no mundo um sinal do amor e da presença de Deus. “Portanto, também nós, com tal nuvem de testemunhas ao nosso redor, rejeitando todo fardo e o pecado que nos envolve, corramos com perseverança para o certamente que nos é proposto com os olhos fixos naquele que é o iniciador e consumador da fé, Jesus.” (Hb 12, 1-2a).

É urgente encontrar o olhar de Jesus especialmente na cruz, pois foi lá, no sofrimento extremo, quando não merecíamos que Ele nos amou, nos elegeu com sua misericórdia. Alguém que encontra o olhar de Jesus na cruz pode compreender que toda tempestade, todo vento contrário, toda adversidade pode ser superada, pois aquele que nos amou, nos amou até o fim. Nesse mundo que grita, que corre, que atropela, permitamos que o nosso coração dirija o nosso olhar àquele que venceu o mundo e que a força desse encontro nos alimente para continuar a caminhada até o encontro definitivo com Deus. Não peçamos pelo fim das tempestades, mas para que, apesar delas o nosso coração seja capaz de conduzir o nosso olhar para Cristo, e que ali encontrados, permaneçamos no seu amor.

Hiago Fonte Boa

Hiago Fonte Boa, 24, mineiro, cristão católico, seminarista, formado em Filosofia, estudante de Teologia, ancorado na esperança e na experiência do amor de Deus. Cinema, música, teatro, pizza... tô dentro!

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