Então é Natal?

Há muito tempo atrás, um menino nascia em um estábulo e se tornou o acontecimento capaz de dividir o tempo, mudar reinos e converter corações. Não importa qual sua religião ou crença, o nascimento do Cristo de alguma forma influencia  sua vida… E como dizia Chesterton: “um homem viveu, há séculos, no Oriente. E eu não posso olhar para uma ovelha, uma andorinha, um lírio, um campo de trigo, uma vinha, uma montanha, sem pensar nEle”.

Mas o nascimento do Cristo ao logo do tempo foi se perdendo em meio a presentes e Papai Noel. Diante da realidade natalina apresentada nos tempos atuais, faz-se necessário a análise sobre qual “o verdadeiro sentido do Natal”. Joseph Ratzinger afirma que “a celebração do Natal recorda-nos que, naquele Menino nascido em Belém, Deus se aproximou de todos e de cada um dos homens; nós podemos encontrá-lo agora, num ‘hoje’ sem acaso”. Mais do que uma simples celebração, o Natal nos recorda um mistério onde a humanidade é abalada com a irrupção do Reino de Deus no seio de sua história. Enquanto os homens gravemente buscaram a divinização como meio de salvação, paradoxalmente Deus tornou-se humano em Cristo para salvar.

C.S. Lewis brilhantemente diz que “de acordo com a história cristã, Deus desce para voltar a subir. Ele desce das alturas da existência absoluta no tempo e espaço à humanidade. […] ele desce para subir de novo, trazendo consigo todo o mundo arruinado.

De alguma forma o Natal inspira nos homens uma promessa e um desejo de esperança e paz. Juntamos com os amigos, com a família ao redor da mesa, compramos presentes, tudo para celebrar o Natal. Mas há algo errado com as nossas celebrações. Não estamos refletindo nem buscando viver a caridade fraterna, espelhando a doação que o próprio Cristo fez a nós. Deus se doou ao homem, mas o homem não é capaz de se doar ao irmão.

Enquanto você e eu estivermos ceando no Natal, milhares de refugiados estarão fugindo da guerra, pessoas estarão vivendo como escravos, crianças estarão sem lar, muitos estarão passando fome na nossa porta, mas nós continuaremos “alegres” porque não entendemos o sentido do Natal.

De acordo com Bauman, vivemos numa modernidade líquida, “em que as instituições, as ideias e as relações estabelecidas entre as pessoas se transformam de maneira muito rápida e imprevisível”.  Na modernidade líquida temos a substituição da ideia de coletividade e de solidariedade pelo individualismo. Assim, a busca da felicidade se torna estritamente individual, criamos uma ansiedade para tê-la, pois acreditamos que ela só depende de nós mesmos.

À medida em que o futuro se torna incerto em razão do egoísmo global, o sentimento coletivo dominante é que se deve viver o momento presente e exclusivamente para si. Dessa instabilidade e ausência de perspectiva também nasce uma angústia que nos paralisa.

Para Bauman, a realidade apresentada nos mostra que o mundo não tem salvação e que eu preciso buscar minha felicidade, independente de como o resto do mundo se sinta. Chegamos ao ponto crucial… A incapacidade de se compadecer da dor do outro só demostra o quão doente estamos.

 “Nós somos responsáveis pelo outro, estando atento a isto ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossas vidas.” Trecho extraído do livro Modernidade Líquida.

O Natal, mais que uma data festiva, vem nos relembrar que Cristo quis se fazer pobre, Ele quis precisar de nós, se humilhou para nos mostrar como servir e como amar. O Natal precisa começar nos nossos corações a ponto de mudar nossas atitudes individualistas e nos tornar verdadeiros cristãos.

Não é possível ser feliz sozinho… somos um único corpo e se alguém sofre, eu também sofro (Romanos 12;5).  Mais do que confraternizar com seus amigos e familiares, busque ajudar os irmãos que sofrem nas ruas, nos hospitais, nos asilos, nos abrigos. Não há maior felicidade do que ajudar alguém… o amor precisa acontecer.

Perdoe mais, ajude mais, ame mais…  O Natal acontece por meio de gestos concretos para aqueles que não creem como nós.

O Papa Francisco disse em um homilia: “Mas também hoje, Jesus chora. Porque nós preferimos o caminho das guerras, o caminho do ódio, o caminho das inimizades. Estamos próximos ao Natal: teremos luzes, festas, árvores luminosas e presépio. Tudo falso: o mundo continua fazendo guerras. O mundo não entendeu o caminho da paz.”

Te desejo um Natal repleto de Deus, com gestos de caridade que perpassem o dia 25 de dezembro e se torne rotina nos demais dias do ano.

 

Paz e Bem!

Rosana Santos

24 anos, cristã católica, advogada, mineira de coração, em busca de Cristo eternamente. "O amor supera a justiça. Justiça é dar ao outro o que é dele, Amor é dar ao outro o que é meu". Joseph Ratzinger

Comentários no Facebook