Entre o relativo e o Absoluto

A verdadeira vocação humana, àquilo para que fomos criados sempre esteve presente na forma como Deus se mostrou à humanidade. Deus sempre nos quis para si, perto dEle, como obra prima de sua ação criadora. Com o pecado nos distanciamos dEle, demos as costas Àquele que nos amou. Ao longo da história da salvação, no entanto, Ele continuou a chamar a humanidade, nos convidando mais uma vez a voltar àquela condição originária para a qual Ele nos criou. De costas para Ele por causa do pecado, a humanidade não soube compreender bem o caminho de volta e por mais que Deus chamasse patriarcas para conduzir o povo, juízes para orientar a caminhada, profetas para converter e fazer valer a sua Palavra, o povo insistia em se desviar do caminho. Havia uma constante tentativa de independência na humanidade, e isso permanece até hoje. Depender de alguém para qualquer coisa coloca em xeque o valor humano na concepção moderna. E quando a liberdade é lida como uma falseada independência absoluta, ela só conduz à escravidão. Foi assim com o povo de Deus no Antigo Testamento, é assim até os dias de hoje.

A encarnação do Verbo é um exemplo da radicalidade do amor de Deus pela humanidade. Agora Ele não fala, ensina ou conduz através de outros, Ele mesmo assume a condição humana. Nesse sentido Deus mostra o caminho, se faz caminho, e nutre os caminhantes. “De fato, Deus amou tanto o mundo, que deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3,16). Na expressão do seu amor Deus mergulha na humanidade. Para que o povo pudesse compreender a Lei do amor, Ele mesmo vem viver aqui essa Lei. Deus desce na condição humana caída no pecado com uma missão: matar a morte trazida pelo pecado, oferecer a vida ao lado de Deus. Para cumprir sua missão Jesus vive plenamente aquilo para que a humanidade foi criada: uma íntima relação com o Pai. Somente nessa intimidade com Deus é que se pode experimentar a verdadeira liberdade, aquela que não se apega ao que é relativo e que apenas nos satisfaz temporariamente. Jesus não se apegou ao efêmero, e ensinou a todos qual lugar deve ocupar aquilo que é relativo em nossa vida. “Então ele lhes disse: ‘Devolvei, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus.’” (Mt 22, 21b).

Quando Jesus se coloca ao lado dos mais pobres, daqueles que por algum motivo são marginalizados é para ensinar a todos algo fundamental: quem é pobre não tem nada de relativo para oferecer em troca de um benefício. Quem é pobre não tem como pagar por nada daquilo que é oferecido a ele. Ficando ao lado deles e agindo na vida deles, Jesus nos mostra que pobres somos todos nós diante de Deus. Nenhum dinheiro no mundo, nenhum conhecimento humano, nenhuma paixão, nenhuma riqueza pode pagar o amor de Deus por nós; nada disso pode pagar a passagem (Páscoa) que Ele nos oferece. Em um mundo que nos ensina constantemente a ‘liberdade de’ não depender de ninguém é difícil tomar consciência da ‘liberdade para’ depender de Deus. O modelo de liberdade que o mundo oferece nos isola, nos fecha às relações, promove o interesse egoísta, e nos coloca cada vez mais distantes de Deus. A liberdade que Cristo ensina abre a humanidade à sua capacidade máxima: o dom de si; tendo Cristo por modelo podemos renunciar àquilo que passa e abraçar aquilo que é eterno.

Toda a vida de Jesus é testemunho de uma verdadeira liberdade, desde a forma como Ele se relaciona com as pessoas, a forma como cumpre totalmente a vontade do Pai, e até mesmo a forma como morre na cruz: sua vida é um dom, e na verdadeira liberdade Ele a oferece. Nesta entrega que nos ensina o que realmente é ser livre e porque a expressão mais radical do dom é a renúncia de si para estar em Deus, Ele faz uma ponte, uma aliança eterna quando é elevado na Cruz. É porque entrega a vida que Jesus a recebe de volta de forma plena, glorificada e como sinal para todos aqueles que fizerem o mesmo caminho. Não se trata de uma tarefa fácil, o próprio Jesus dá testemunho disso; o mundo no sentido daquilo que se apresenta como oposição ao plano de Deus é sempre uma força muito atrativa. No entanto, é preciso se perceber pobre, carente, dependente para aprender a discernir entre os bens que passam e Aquele único e eterno bem que conduz à eternidade. É preciso uma fé corajosa que rejeite o relativo e abrace o absoluto; uma esperança audaciosa que nos coloque sempre a caminho; e um amor oblativo que compreende que uma vida doada é passagem (páscoa) para a eternidade.

Hiago Fonte Boa

Hiago Fonte Boa, 24, mineiro, cristão católico, seminarista, formado em Filosofia, estudante de Teologia, ancorado na esperança e na experiência do amor de Deus. Cinema, música, teatro, pizza... tô dentro!

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