Graça Em Meio Ao Caos

Descanso, Solitude e o Leve Fardo De Cristo

É inegável o fato que vivemos em meio a uma sociedade permeada pelo caos, as demandas que nos ocupam têm sido por vezes sufocante, somos constantemente esmagados pela rotina de uma agenda interminável de compromissos e da falta de tempo. O descanso se tornou de certa forma opcional para alguns, afinal, há muito o que fazer e não há necessidade de gastar tempo descansando, pois iremos fazer isso quando morrermos.

Richard J. Foster diz que no mundo moderno o diabo se especializou em três coisas para nos afastar de Deus: ruído, pressa e multidões. Se ele puder manter-nos ocupados com “grandeza” e “quantidade”, descansará satisfeito[1]. Infelizmente ele tem obtido êxito, nossa rotina é um claro exemplo disso, quase não temos mais tempo para nossos devocionais, para nossas famílias, para descansar, e até mesmo para ouvirmos a voz de Deus.

Os elevados ruído das notícias, das redes sociais, do trânsito, etc., são um aferidor dos obstáculos do encontro do homem com Deus, consigo mesmo e com o seu próximo. Um exemplo disso é sempre que vamos orar, ou temos um momento de devocional, somos imediatamente interrompidos pelo barulho de alguém nos chamando, do celular tocando com as notificações dos grupos do WhatsApp, da música alta dos vizinhos e quando percebemos já abandonamos aquela tarefa.

A pressa, por sua vez, tem nos levado a uma enorme falta de atenção, não conseguimos mais experimentar e aproveitar as coisas simples da vida como um almoço em família, o riso de uma criança, o barulho da chuva que cai na terra. Até apreciar a beleza se tornou uma tarefa hercúlea, pois mesmos passando pelos mesmos lugares todos os dias, já não conseguimos mais reparar nos detalhes daquela antiga igrejinha perto de casa, no colorido das flores na primavera, daquela manga madura na árvore que dá água na boca e até mesmo a música se tornou apenas um instrumento contra o ruído do trânsito, nós não a apreciamos mais como a expressão artística.

Foster diz ainda que “O medo da solidão nos impulsiona para as multidões[2]”, por causa disso muitos tem buscado refúgio em festas ou numa roda de conversas onde conserva-se uma constante torrente de palavras mesmo que sejam ocas, a necessidade de comentar a respeito de tudo o que acontece tem se tornado um vício daqueles que necessitam constantemente de atenção e que não suportam a ideia de solidão.

A solução para esses problemas de uma vida sobrecarregada está no convite que Cristo faz:

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve”.[3]

O convite para carregar o leve fardo de Cristo resultará em duas coisas, o primeiro é o descanso. É inegável a importância do descanso para o ser humano, ele é o responsável por trazer a recomposição das células, o equilíbrio e o crescimento saudável. O descanso é algo tão importante que nas Sagradas Escrituras Deus o instituiu como o quarto mandamento, “Lembra-te do dia de sábado para o santificar”[4], este mandamento mudou tudo ao insistir que as pessoas parassem de trabalhar um dia a cada sete, ele foi responsável por evoluir o ser humano que até então vivia em função de trabalhar.

O descanso também é importante para nos lembrar da Providência Divina e de que Cristo completou seu trabalho e tem cuidado de nós. Nesses tempos de consumismo desenfreado somos muitas vezes levados a andar ansiosos, e muitas vezes por coisas que se quer precisamos ou são importantes. No sermão do monte, quando Cristo nos diz que é impossível servir a Deus e a Mamom[5], ele estava querendo dizer que quando depositamos nossa confiança no dinheiro, o único resultado possível é a escravidão, porque estaremos presos as condições desse mundo para obter riquezas, porém quando descansamos, confiamos que Deus é poderoso para suprir todas as nossas necessidades, que apesar de todo o nosso esforço e trabalho, o cuidado com o que comemos, bebemos ou vestimos vem de Deus.

A segunda coisa que o leve fardo de Cristo nos proporciona é a solitude. Diferente da solidão que em sua essência é o estado emocional do indivíduo que deseja ardentemente uma companhia e não a tem, a solitude é a necessidade de maior contato com o Deus, é o estado de mente e coração voltado diretamente para Deus, e que pode ser mantida em diversas ocasiões. Entretanto, para que alcancemos o perfeito estado de solitude, é necessário silêncio. Como a pausa serve para dar ênfase a determinado trecho de uma música, assim o silêncio serve para enfatizar o falar de Deus aos nossos corações, diferentes das meditações orientais que o silêncio tem como objetivo esvaziar a mente como um fim em si mesmo, na solitude o silêncio é a ferramenta que esvazia a nossa mente das preocupações terrenas para a ocupar com as coisas do alto.

E esse momento de silêncio tem se mostrado importante principalmente por causa dos ataques do mvndo moderno ao cristianismo, muitos de nós estamos tão empenhados em combater os levantes do inimigo principalmente nas redes sociais, que acabamos por adquirir uma necessidade de comentar todas as polêmicas que surgem sem ao menos ficarmos em silêncio para ouvir o que Deus quer que nós falemos, e esquecemos assim que a Bíblia nos ensina que há tempo para falar, mas também há tempo de nos calar[6]. Não quero dizer com isso que devemos ser omissos, mas que existem momentos que é necessário que nos calar para que Deus fale.

Mas o calar nem sempre é sinônimo de silêncio, o simples refrear-se de conversar, sem um coração atento à voz de Deus, não é silêncio[7], podemos estar calados, mas o nosso coração permanecerá inquieto enquanto não descansarmos no Senhor. O apostolo Tiago, faz uma analogia da língua como leme e freio[8] muito apropriada, mostrando que muitas vezes é ela que controla a nossa vida, por isso que quando nos calamos e ficamos em silêncio, estamos reconhecendo que as nossas inquietações não têm muito poder e confiamos a Deus o que está fora do nosso alcance e das nossas capacidades, entendendo que é nas mãos dele que está o controle das nossas vidas. Um momento de silêncio e quietude, mesmo que muito breves, tornam-se um bálsamo que refrigera a nossa alma.

A graça em meio ao caos do nosso cotidiano está em tomarmos sobre nós o leve fardo de Cristo que é a confiança em sua provisão, é descansar na esperança de que se confiarmos nEle não seremos desamparados e entendermos que muitas vezes é necessário estarmos em silêncio, abrindo mão do controle das nossas vidas para ouvirmos o que Deus tem para nos falar.

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Referências:

[1] Celebração da Disciplina – Richard J. Foster
[2] Celebração da Disciplina – Richard J. Foster
[3] Mateus 11:28-30 – ARC
[4] Êxodo 20:8 – ARC
[5] Mateus 6:24 – ARC
[6] Eclesiastes 3:7 – ARC
[7] Celebração da Disciplina – Richard J. Foster
[8] Tiago 3:1-12 – ARC

Jefferson Oliveira

Carioca, 28 anos, um cristão que trabalha com TI e é estudante de filosofia. Apaixonado por bacon, música, banhos de chuvas, soneca da tarde, obras de arte, arquitetura gótica. Saudoso como C. S. Lewis, do aroma de uma flor que nunca encontrei, do eco de um tom que ainda não ouvi, de um país que nunca visitei.

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