Intolerância religiosa

Acontecimentos recentes e exaustivamente discutidos tocam a consciência cristã sobre um tema fundamental: a intolerância religiosa. Na maioria das vezes tal termo é utilizado pelos críticos das religiões para se referir à forma irracional, radical e prejudicial como as religiões orientam a vida de seus seguidores. De fato, há seitas, dissidências religiosas cristãs ou não que exercem tal papel na vida de seus fiéis. É preciso, no entanto, ter clareza e senso crítico para não generalizar a religião como um única expressão – jogar todos no mesmo saco e dizer que é tudo da mesma farinha.

O valor humanizador que expressões religiosas maduras, bem fundamentadas podem oferecer ao mundo é inquestionável, embora você nunca encontrará isso nos dados e notícias da mídia. Boas atitudes, que poderiam se tornar exemplo e gerar uma mudança notável nesse caminho escuro que a humanidade percorre não podem ser mostradas – afinal, coisa boa não rende assunto, não causa medo, não prende pessoas em casa na frente de uma televisão. Nada de novo debaixo do céu! O egoísmo humano vem matando a própria humanidade como um veneno a conta-gotas.
Há porém, um outro lado da tão dita intolerância religiosa que salta aos olhos nesses últimos tempos. Acontece que a humanidade se viu tão independente e ao mesmo tempo tão capaz de si mesma que resolveu ridicularizar, ofender, desrespeitar sua própria história. Falando diretamente, me refiro especificamente às expressões ‘artísticas’ que tem ganhado lugar nas discussões devido especialmente à reação dos cristãos com relação a ‘obras’ ou ‘performances’. A exposição “Queermuseu” promovida pelo banco Santander, bem como a performance ‘Atos de Transfiguração’ do mesmo artista, e ainda uma exposição com performance produzida pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo são o centro da discussão sobre um estatuto da arte e o respeito e a moral cristã. Tomar elementos próprios de uma religião e banalizar o sagrado seja destruindo, expondo; e também incitar através de ‘obras’ a normalização de atos que ferem a moral, ferem a Lei (não apenas a divina). Aqui não se trata de colocar as pessoas em contato com uma realidade e muito menos uma simples expressão artística. Desde sempre a arte tem uma força muito maior que transcende o seu autor, transcende o tempo em que ela foi criada e transcende também os seus intérpretes. O veneno, no entanto, está justamente nos objetivos não revelados, na crítica que se detém apenas na desconstrução histórica ou destruição moral e não tem a mínima preocupação na formação humana. Um dos (porque são muitos) males da modernidade é tentar objetivar o ser humano a tal ponto de não ter que se preocupar com a vida. Nesse cenário perturbador o conceito de intolerância religiosa se tornou plástico: afinal, intolerantes são os cristãos que não admitem ver a sua fé e moral que seguem ser ferida ou intolerantes são aqueles que promovem ‘expressões artísticas’ colocando em xeque os elementos da fé e moral com a justificativa de um ‘estatuto da arte’ que lhes confere a total liberdade? Se de fato a arte transcende autor, tempo e intérpretes intolerantes são os ‘artistas’ que desconsideram (SERÁ?) que a sua ‘arte’ tem um poder formativo. O ‘será’ em letras garrafais pede para levarmos em conta que não se trata apenas de ignorância sobre os efeitos da arte, mas de uma tentativa maldosa de relativizar a vivência de fé até que ela acabe.
Infelizmente o que vemos das mais diversas expressões que não tem um vínculo de fé não é a construção de um diálogo minimamente comum. O que acontece é a tentativa de imposição de uma ditadura do relativismo, o nascimento de um lobby que ultrapassa a aceitação e chega aos limites imposição. Hoje, nós cristãos sofremos intolerância religiosa: não aceitam a expressão de nossa fé, ferem nossas verdades com deboche, reduzem nossa humanidade pelo fato de ainda termos fé. Mas, Aquele que nos precede e que vai à nossa frente já nos havia alertado: “Felizes sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e regozijai-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas, que vieram antes de vós.” (Mt 5, 11-12).
A radical perseguição ao cristianismo está apenas começando. Tal perseguição será banhada de sangue em alguns lugares, com no Oriente Médio e no extremo Oriente, será moral em outros lugares, como na Europa e América. Sejamos firmes na provação, fiéis na defesa da fé, e cheios de esperança na misericórdia de Deus.

Hiago Fonte Boa

Hiago Fonte Boa, 24, mineiro, cristão católico, seminarista, formado em Filosofia, estudante de Teologia, ancorado na esperança e na experiência do amor de Deus. Cinema, música, teatro, pizza... tô dentro!

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