O cavalo e o seu menino: Sobre a providência divina

Contém Spoilers

O cavalo e o seu menino, é o terceiro livro na ordem cronológica dos livros das crônicas de Nárnia. Foi publicado em 6 de setembro de 1954 pela editora HarperCollins. A história se passa na Calormânia, durante a época de ouro de Nárnia, quando o Rei Pedro e seu irmão e irmãs governavam Nárnia.

A história se passa na Calôrmania, um país que não tem sua origem descrita em nenhum dos livros, e essa falta de informações deram “margem” para algumas teorias. São elas: Segundo Walter Hooper (que foi secretário de Lewis e após a morte de Lewis, se tornou conselheiro das obras de Lewis), a Calôrmania foi fundada por proscritos que viajaram através do deserto 24 anos após a fundação da Arquelândia; também outra teoria que foi escrita (não por Hooper), é que a Calormânia foi fundada por homens do nosso mundo que abriram no oriente médio, um portal para Nárnia. Esta teoria justificaria a semelhança física com povos dos países islâmicos do Oriente médio (os calormanos eram homens de pele morena, com muita barba. Usavam túnicas, turbantes, e sapatos de madeira, além de utilizarem como arma a cimitarra.

A história conta sobre Shasta, um garoto que foi criado por Arriche, um pescador calormano. Certo dia, o garoto e o pai receberam a visita de Anradin um Tarcaã (cavaleiro nobre da Calormânia), porem alem da visita, Anradin queria comprar Shasta para ser seu escravo. Shasta ouviu a proposta de Anradin quando estava escondido do lado de fora da casa, a surpresa o faz sair dalí e ir para o estábulo. E lá no estábulo, ao resmungar sobre o que havia acabado de ouvir da boca do Tarcaã, Shasta descobre que o cavalo do Tarcaã era um cavalo falante de Nárnia.

O Cavalo se chamava Bri, logo ouviu as queixas do menino e o cavalo ja contou toda a verdade sobre Anradin, que ele era um homem mau e que a melhor coisa a fazer era fugir para o norte, destino Narnia. Ao escapar, eles encontram mais duas companheiras, Aravis uma tarcaína calormana e Huin, uma égua falante.

Aravis e Huin estavam fugindo de onde moravam pois Aravis havia sido prometida para casar-se com Achosta (Ahoshta na versão em inglês), que era o grande vizir do Tisroc (Nome dado aos reis calormanos, sempre deve ser saudado pela expressão “Que ele viva para sempre”. Acredita-se que o Tisroc era descendente do deus calormano Tash). Diante do destino de casar com alguém que ela não conhecia e que não amava, Aravis tenta o suicídio mas é impedida por Huin que a convence a fugir de casa e ir para Narnia.

A providência Divina

Providência Divina é o meio pelo qual Deus governa todas as coisas no universo. Na bíblia temos vários exemplos de como e onde Deus mostra o seu controle completo de todas as coisas (Salmos 103:19, Mateus 5:45, Salmos 66:7, Gálatas 1:15, Lucas 1:52, Salmos 4:8).

O objetivo da previdência divina, é de que as coisas aconteçam da maneira como Deus quer para que assim seja cumprido a sua perfeita vontade. Conforme podemos ver em Atos 9, a conversão de Saulo após ele (e apenas ele) ver uma luz e escutar uma voz que lhe falava. Ainda usando o exemplo de Paulo, vemos em Atos 16:6-10, que Deus trabalha para que Paulo e seu grupo fosse para Trôade e não para a Ásia ou Bitínia.

Na história de Moisés, vemos ainda mais a providência divina. O menino hebreu que foi colocado em uma cestinha no rio Nilo, que foi encontrado por uma egípcia, criado no palácio do Faraó, que teve de fugir após cometer um assassinato e que anos depois volta ao Egito para salvar o povo de Deus.

Trazendo para mais perto do assunto, o próprio C.S. Lewis foi um exemplo de como a providência divina está presente em nossas vidas. Lewis nasceu de família cristã e que após a morte da sua mãe, foi morar e estudar em internatos. Lewis foi entrando no ateísmo pouco a pouco até que ao chegar ao “auge”, quando ele tinha tudo que queria, acabou descobrindo um vazio em seu coração; e a busca de preencher o vazio se deu em Lewis encontrar Deus e Deus assim usá-lo através de todo o conhecimento que Lewis adquiriu.

Tudo isso nos faz ter mais certeza do que diz em Provérbios 16:9: “O coração do homem traça o seu caminho, mas o SENHOR lhe dirige os passos. ”

Agora quem lê se pergunta: e aonde está a providência divina em O cavalo e o seu menino? Bem, na história Aslam aparece em segundo plano, mas sempre em prol dos personagens Shasta e Aravis durante a jornada deles fugindo da Calormânia. Leia o trecho:

“Devo ser o cara mais desgraçado de todo o mundo, pensou. Tudo dá certo com os outros, comigo nunca. Os nobres e as damas de Nárnia conseguiram fugir de Tashbaan; eu fiquei lá. Aravis, Bri e Huin estão no bem-bom com o velho eremita; fui o único a ter de sair. O rei Luna e sua gente estão a salvo no castelo, com os portões bem fechados, mas eu fiquei de fora.

 Teve tanta pena de si mesmo que as lágrimas começaram a deslizar por seu rosto.” 

Nesse trecho vemos claramente a decepção de Shasta, pois apesar de toda a caminhada, ele acabou sozinho no meio de um lugar desconhecido e longe de seus amigos. Mas foi aí que algo estranho acontece:

“Um susto interrompeu os seus tristes pensamentos. Alguém ou alguma coisa caminhava a seu lado. Nas trevas não podia ver nada. E a coisa (ou pessoa) ia tão silenciosamente que ele mal podia ouvir suas pisadas. Ouvia, sim, uma respiração: o invisível companheiro de fato respirava com vontade; devia ser uma criatura enorme. Foi um grande choque.

Relampejou na sua cabeça uma lembrança: ouvira dizer que existiam gigantes nos países do Norte. Mordeu os lábios, apavorado. Mas, agora que tinha um motivo real para chorar, parou de chorar.

A coisa (se é que não era uma pessoa) ia tão silenciosa que talvez fosse mera imaginação. Já estava certo disso, quando ouviu ao seu lado um suspiro grande e profundo. Não era imaginação! O fato é que sentiu o hálito quente desse longo suspiro na mão direita.

Se o cavalo fosse mesmo bom – ou se ele soubesse como fazer o cavalo tornar-se bom – teria arriscado tudo numa corrida desabalada. Como isso não era possível, seguiu a passo, com o companheiro invisível caminhando e respirando a seu lado. Acabou não aguentando mais:

– Quem é você? – Murmurou baixinho.

– Alguém que esperava por sua voz – respondeu a coisa. O tom não era alto, mas amplo e profundo.

– Você é… um gigante?

– Pode me chamar de gigante – disse a grande voz. – Mas não me pareço com as criaturas que você chama de gigantes.

– Não consigo vê-lo – falou Shasta, depois de muito tentar. Uma coisa terrível lhe passou pela cabeça. Com a voz quase trêmula de choro, perguntou:

– Você não é… não é uma coisa morta… é? Vá embora, por favor. Nunca lhe fiz mal. Ó, sou o sujeito mais desgraçado do mundo!

Sentiu novamente o hálito quente da coisa no rosto e na mão.- Morto não respira assim. Pode me contar as suas tristezas, rapaz.

O hálito deu a Shasta um pouco mais de confiança. Contou então que jamais conhecera pai e mãe, que fora criado por um pescador muito severo. Contou sobre como fugira, sobre os leões que os perseguiram, os perigos em Tashbaan, a noite entre os túmulos, as feras que uivavam no deserto, o calor e a sede durante a caminhada, e o outro leão que surgiu quando estavam quase chegando, Aravis ferida…contou, por fim, que estava com fome, pois não comia nada havia muito tempo.

– Não acho que seja um desgraçado – disse a grande voz.

– Mas não foi falta de sorte ter encontrado tantos leões?

– Só há um leão – respondeu a voz.

– Não estou entendendo nada. Havia pelo menos dois naquela noite…

– Só há um leão, mas tem o pé ligeiro.

– Como sabe disso?

– Eu sou o leão. ”

Neste trecho vemos que Aslam vai pessoalmente falar com Shasta e mostrar a ele que tudo estava na perfeita vontade de Deus 

“- Fui eu o leão que o forçou a encontrar-se com Aravis. Fui eu o gato que o consolou na casa dos mortos. Fui eu o leão que espantou os chacais para que você dormisse. Fui eu o leão que assustou os cavalos a fim de que chegassem a tempo de avisar o rei Luna. E fui eu o leão que empurrou para a praia a canoa em que você dormia, uma criança quase morta, para que um homem, acordado à meia-noite, a acolhesse. ” 

Como vemos, Aslam esteve sempre presente, mesmo quando Shasta estava em seus piores momentos. Como Tolkien disse no seu livro “Arvore e folha”, antes do final feliz vem sempre a tragédia, para toda catástrofe existe a eucatástrofe. Quando Shasta achava que sua história havia acabado (e da pior forma possível) acabava que Aslam aparecia (as vezes de outra forma) para dizer que não havia acabado e que o propósito de Shasta era ainda maior. Um outro exemplo que temos, é a morte de Cristo onde sua morte (catástrofe) foi superada pela sua ressureição (eucatástrofe).

Shasta assim como nós, esteve sempre sustentado pela providencia divina.

Que Deus nos abençoe!

Junior Azeredo

26 anos, Cristão protestante, Analista de Controle durante a semana e me faço de músico nos fins de semana. Adoro exatas, livros, filmes, seriados, coxinha e churros. "Deus fala comigo através de pensamentos e sentimentos que são meus, mas não tem origem em mim" - C. S. Lewis

6 comentários em “O cavalo e o seu menino: Sobre a providência divina

  1. Não consigo ler esse trecho da conversa entre Shasta e Aslam e não chorar…
    Essa não é a Crônica mais inventiva ou profunda mas, certamente, foi a que mais me marcou. Não consigo dizer qual Crônica é a minha favorita, mas essa é a primeira a vir à mente quando penso a respeito.
    ” – Então foi você que machucou Aravis? (Shasta)
    – Fui eu. (Aslam)
    – Mas por quê?! (Shasta)
    – Filho! Estou contando a sua história, não a dela. A cada um só conto a história que lhe pertence. (Aslam)”
    Pelas juba de Aslam! Que coisa linda!

    1. Marcelo, me lembro da primeira vez que li essa conversa entre Shasta e Aslam. Eu estava dentro do ônibus e comecei a chorar.
      Realmente incrível esse trecho.
      Que Deus te abençõe

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.