Orações à Mesa e a Esperança na Memória

Conviver com crianças é sempre um privilégio. Por isso, é frequente em meus textos por aqui a menção de meus sobrinhos. Não consigo evitar. Isso porque seus olhares não viciados pelo costume, suas almas desejosas por conhecer, seus corações puros até mesmo em suas traquinagens e suas imaginações combinadas à realidade são uma imensa fonte de aprendizado para mim. É com eles que eu mais aprendo a aprender.

Um dos exemplos desse processo está no hábito de orações à mesa. Minha sobrinha de três anos desenvolveu este costume na escola em que estuda. Assim, todas as vezes que almoçamos em família, bem no meio das refeições ela se lembra assustada: “esquecemos de orar!” Ela, então, une as mãozinhas e escolhe quem irá conduzir a oração. Todo mundo acha muito fofo e engraçadinho, porque, embora destoe de nossos costumes, parece haver um consenso que sua atitude é muito boa.

Em nossa rotina, por vezes nos esquecemos desses hábitos que nos fazem desligar do estilo máquina de ser: sempre materialista, sempre ocupado, sempre cheio de prioridades, sempre conectado às coisas à nossa volta. Sejam as orações nas refeições, as orações propriamente ditas, sejam as ações de graça, os tempos devocionais, a leitura da palavra. Tais ações nos lembram constantemente de que há algo mais, algo além do imanente. E estas ações não podem, na verdade, não devem ser deixadas apenas para o domingo.

Pode-se argumentar que tudo o que fazemos é para a glória de Deus. O trabalho, os estudos, os relacionamentos. E também, pode-se apontar o cuidado em não dividir a vida entre sagrado e secular. Concordo! Parafraseando Kuyper, não há um centímetro de nossa existência que não pertença a Cristo. Entretanto, mesmo cristãos convictos são consciente e inconscientemente tentados a apegar-se a essa realidade que nos cerca e lentamente esquecer que existe algo que transcende a tudo isso.

Diante disso, é preciso então que sejamos lembrados. Lendo o antigo testamento, percebo nas entrelinhas de alguns mandamentos como se houvesse um certo teor pedagógico diante de alguns hábitos. No livro de Deuteronômio, quando o povo de Israel está prestes a entrar na terra prometida, vemos Deus constantemente agindo para que o povo sempre se lembrasse de que eles lhe pertenciam, para que quando eles entrassem na terra prometida não O esquecessem. Um Deus que conhece a fragilidade do caráter humano, misericordiosamente os prepara para viver para ele.

Nosso cotidiano pode ser imensamente diferente daquele do povo de Israel, contudo nossa fragilidade é muito parecida. É tão comum que fiquemos conectados à rotina que por vezes é fatigante, que lentamente esquecemos que somos forasteiros neste mundo. Deixamos de pensar que nosso lugar não é aqui. Deixamos de crer, em nosso íntimo, naquilo que transcende a dura realidade de nossos dias. Deixamos de crer no céu, na eternidade com Cristo. Por fim, como a Susana de “As crônicas de Nárnia”, esquecemos de onde viemos e para onde vamos.

Por isso, é preciso que, como minha sobrinha que para o almoço de todos ao se lembrar das orações, que aprendamos a parar por um momento. Que nesses pequenos hábitos como a oração à mesa, os devocionais, ou em um simples “graças a Deus”, paremos para lembrar das promessas de Deus a nosso respeito na palavra, do ele já fez por nós(nas nossas vidas, na história, na cruz), e de sua grande salvação. Esses pensamentos são suficientes para ressignificar todo o nosso trabalho diário, para abrandar as ansiedades, para consolar as tristezas e insatisfações. Pois, ao tirar os olhos das circunstâncias, iremos “trazer à memória aquilo que nos dá esperança” (Lm 3:21). Assim, diariamente fortalecidos por essa esperança no Deus verdadeiro que nós conhecemos, como peregrinos seguiremos nossa jornada para a eternidade. Não mais na obscuridade desse mundo, mas no crepúsculo da graça de Deus.

Mayara Lima

29, Paranaense, Cristã, Professora de inglês, estudante de Arquitetura e Urbanismo, fã de literatura, poesia, artes e teologia. "Tu nos fizeste para ti mesmo, e nossos corações ficam desassossegados enquanto não descansam em ti”. - Agostinho

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