Um mundo carente de Deus

O ser humano é habitado por um desejo de eternidade que é como uma força motriz da história. É justamente a constante insatisfação que faz com que caminhemos e continuemos a procurar um sentido, um telos para a nossa existência. No entanto, o nosso tempo, por vezes, procura colocar a plena realização humana em um movimento autônomo, individual e isolado. É como se fôssemos os únicos responsáveis por alcançar uma vida plena, como se toda realização fosse apenas um movimento pessoal, individual e egoísta. E de fato, muita gente vive assim, procurando, a qualquer custo, a própria realização – não importa quais meios ou caminhos sejam necessários para isso.

Já aqueles que se arriscam nesta tarefa tendo em vista apenas um vida neste mundo acabam em um beco sem saída. Depois de tudo fazerem, de alcançarem tudo aquilo que o mundo promete como realização, descobrem-se sozinhos, isolados, sem rumo, sem um sentido para continuar a existir. A verdade é que uma busca desenfreada por realização que não esteja fundada em Deus acaba em vazio, abandono, e até em morte. Por que o nosso tempo tem que lidar com tanta depressão e suicídio? A principal justificativa que encontramos entre os depressivos é a falta de motivação, entre os suicidas a falta de sentido na existência. Este mundo que nos ensinou a buscar incessantemente o prazer e a realização aqui, tenta tirar nossa sede de eternidade, o anseio mais profundo da alma humana, a esperança de um encontro definitivo com Deus.

A humanidade carrega um desejo inato pelo encontro com Deus. É como uma saudade de casa, porque nós saímos de Deus, e só viveremos plenamente de novo quando voltarmos para Ele. O povo de Deus na tradição bíblica e cristã cultiva um hábito simples e exigente que mantém viva a nossa relação de dependência em relação ao Criador. A prática do jejum mais do que uma simples abstenção de alimento tem por objetivo impor ao corpo a certeza de que não podemos ser autossuficientes. O jejum nos ajuda a perceber que somos dependentes, carentes, que de alguma forma, direta ou indiretamente dependemos de alguém. Assim, através desta prática o povo de Deus sempre soube que era peregrino neste mundo, que aqui precisa caminhar, amadurecer, buscar um encontro com Deus que possa orientar e dar sentido à existência e assim nos conduzir à eternidade. C.S. Lewis afirma que: “Se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para um outro mundo.” Nesse sentido a insatisfação é fundamental, pois alimenta a esperança do encontro com o eterno.

Infelizmente o mundo tenta ensinar que a ‘carência’ pode ser sanada com coisas, valores, bens, e até mesmo com pessoas (fazendo-as objeto de realização). A verdade é que nada disso trará saciedade à alma humana e cada vez mais corremos o risco de perder o sentido, o norte, a orientação de nossa existência. O fato é que o mundo está carente de Deus, não que Ele esteja ausente, Ele caminha sempre ao nosso lado, com um desejo amoroso de se fazer ainda mais próximo. Mas, afoitos pelas inúmeras ofertas de realização e satisfação que se apresentam, não nos apegamos ao eterno, àquilo que não podemos perder, àquilo que não passa – o amor de Deus.

O desafio do nosso tempo, da nossa peregrinação cristã neste mundo é saber discernir. Em meio a tantas possibilidades que se apresentam, precisamos nos apegar à única que é verdadeira: a nossa realização plena está em Deus. Dele viemos, nEle nos movemos e somos, e para Ele retornaremos. Esta vida é o caminho, as escolhas que fazemos, o modo como vivemos, definem se caminhamos para Deus ou nos afastamos dEle. Não permitamos que as tantas vozes, desejos, atrações nos tirem aquilo que é mais importante. Apesar de toda dificuldade que pode significar estar junto de Deus, nada se compara à realização que só nEle o nosso coração pode encontrar. Os relatos dos evangelhos mostram sempre que Jesus exerce uma força de atração sobre as pessoas, tanto aqueles que não o compreendiam quando aqueles que se abriram a Ele e se tornaram discípulos sentiam-se atraídos por Ele. Hoje, Ele, o ressuscitado que vive entre nós continua a exercer esta força, continua a nos chamar. É preciso que nos abramos a esta força, escutemos o que Ele diz, experimentemos quem Ele é, deixemos que Ele habite em nós. Só assim a nossa vida terá sentido, só assim enfrentaremos o mundo, só assim caminharemos para a nossa verdadeira meta: o encontro definitivo e pleno com Deus.

Hiago Fonte Boa

Hiago Fonte Boa, 24, mineiro, cristão católico, seminarista, formado em Filosofia, estudante de Teologia, ancorado na esperança e na experiência do amor de Deus. Cinema, música, teatro, pizza... tô dentro!

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